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Proibição das Bets e sua Influência no Mercado do Futebol Brasileiro
Esta pesquisa tem como objetivo compreender seu impacto da proibição das casas de aposta sobre o mercado do futebol brasileiro, mapeando as consequências para os diferentes atores do cenário.
FGV SPORTS - LIGA ACADÊMICA DE GESTÃO ESPORTIVA
Proibição das Bets e sua Influência no Mercado do Futebol Brasileiro
Consequências atreladas ao Futebol Brasileiro resultantes da Medida Provisória que proíbe a exploração de casas de apostas, seja através de intermediação ou publicidade. Não apenas apostas esportivas, mas também cassinos online.
Autor: Martin Lifsic
Data: 05/10/2026
Diretor: Martin Lifsic
Sumário
1. A nova realidade
1.1 Introdução
1.2 Proibição
1.3 As frentes em aberto: Congresso e STF
1.4 Associações que se posicionaram
1.5 Dependência instalada
2. Clubes
2.1 Perda de patrocínio, máster e secundário
2.2 Queima de estoque de camisas
2.3 Espaço ocioso e desvalorização do mercado
2.4 Painéis de publicidade e demais propriedades
3. Mercado de atletas
3.1 Relação entre Bets e folha salarial
3.2 A influência em contratações e cumprimento de pagamentos
3.3 Dificuldade em novas contratações e pressão salarial
3.4 Empresários, agências e atletas
4. Mídias e transmissões esportivas
4.1 A dependência das mídias com casas de aposta
4.2 Retirada imediata dos anúncios
4.3 Canais fechados, streaming e criadores digitais
4.4 A reação do setor
5. Confederações e competições
5.1 As competições nacionais da CBF
5.2 Competições continentais - Copa Libertadores
5.3 Campeonatos estaduais e federações
6. Varejo e material esportivo
7. A estrutura futura e o benchmarking internacional
7.1 As possíveis resoluções jurídicas
7.2 Para onde deve migrar a receita
7.3 Benchmarking internacional
7.4 Conclusão final
8. Referências bibliográficas
8.1 Referências citadas
8.2 Demais fontes consultadas
1. A nova realidade
Esta pesquisa não avalia os prejuízos sociais causados pelas casas de apostas nem discute o mérito da proibição. O objetivo é compreender seu impacto sobre o mercado do futebol brasileiro, mapeando as consequências para os diferentes atores do cenário.
Por questões de formatação do site, ao final de cada parágrafo será indicado a numeração das fontes utilizadas, e na seção 8.1 estão enumeradas todas as fontes previamente citadas.
1.1 Introdução
A proibição das casas de apostas atinge diversos stakeholders do futebol brasileiro, seja de forma direta ou indireta; clubes, confederações, atletas, empresários, agências, mídias televisivas, varejistas e empresas que vendem serviços e produtos para mercado futebolístico brasileiro (como empresas de tecnologia do esporte, vestuário e material esportivo).
O rombo possui um potencial de ser extremamente profundo, em muitos aspectos e com prejuízos diferentes para cada nicho. No entanto, irei aprofundar no “shift” do futebol brasileiro resultante dessa nova realidade.
1.2 Proibição
A Medida Provisória 1.394/2026, publicada em 25 de setembro de 2026, proíbe explorar, oferecer, intermediar e fazer publicidade de apostas de quota fixa no Brasil, o que abrange tanto apostas esportivas quanto jogos de cassino online. Assinada pelo presidente Lula apoiando-se no argumento de problema de saúde pública, alcança ambientes físicos e virtuais e também as autorizações concedidas por estados e pelo Distrito Federal. (fontes utilizadas: 1)
A MP entrou em vigor na data da publicação, com efeitos imediatos. A partir dela, ficaram vedados novos depósitos nas plataformas e a contratação de novas campanhas publicitárias, enquanto os anúncios já firmados podiam permanecer no ar até 5 de outubro. O restante do desmonte segue um calendário escalonado. Até as 23h59 de 5 de outubro, os apostadores deveriam sacar os saldos e as empresas retirar a publicidade e os sinais de patrocínio. A partir de 6 de outubro, sites e aplicativos saem do ar e são removidos das lojas, e a exibição de marcas de apostas passa a configurar publicidade abusiva. Em 25 de outubro, trinta dias após a publicação, extinguem-se as concessões, permissões e autorizações para a exploração das apostas. (fontes utilizadas: 2)
Em cerca de trinta dias, o arranjo construído desde a regulamentação de 2023 passa de atividade autorizada e tributada a atividade proibida, sob um cronograma que obriga clubes, operadoras e veículos a desfazer contratos vigentes em poucos dias.
1.3 As frentes em aberto: Congresso e STF
A MP está em vigor, mas não é definitiva. Como toda medida provisória, precisa ser aprovada pelo Congresso em até sessenta dias, prorrogáveis por mais sessenta, sob pena de perder a validade. Esse prazo transforma os próximos meses em um período de indefinição, no qual o texto pode ser mantido, alterado ou derrubado.
São três trajetórias, definidas pela combinação de duas frentes independentes, o Congresso e o STF. Qualquer uma pode encerrar o jogo sozinha.
- Manutenção da proibição total. O Congresso converte a MP em lei dentro do prazo e o STF não suspende seus efeitos. As apostas de quota fixa, esportivas e de cassino, permanecem proibidas. É o cenário de maior impacto sobre o futebol, com o fim imediato de patrocínios, placas, naming rights e receitas associadas.
- Conversão em regra mais branda, só cassino. O Congresso aprova a MP com emendas que restringem a proibição ao cassino online e preservam a aposta esportiva e seu patrocínio. Esse caminho já tem base concreta: pelo menos seis das emendas apresentadas vão nessa direção. É o desfecho que os clubes defendem, porque mantém a principal fonte de receita. (fontes utilizadas: 3)
- Derrubada da MP. A medida perde a validade, seja porque o Congresso não a aprova no prazo de 60 dias, prorrogáveis por mais 60, deixando-a caducar, seja porque o STF a declara inconstitucional ou suspende seus efeitos por liminar.
1.4 Associações que se posicionaram
A medida dividiu as entidades ligadas ao esporte e ao setor de apostas, com manifestações públicas dos dois lados logo após a publicação.
No mesmo dia da MP, o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) e a Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL), ao lado das operadoras licenciadas, divulgaram um manifesto conjunto com o lema "proibir não é proteger". Também se posicionou contra a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), pela perda de receita publicitária, e os próprios clubes e federações, que antes da MP já haviam divulgado manifesto em defesa do mercado regulamentado. (fontes utilizadas: 4)
Do outro lado, a Associação Brasileira de Supermercados (Abras) avaliou que a proibição veio tarde e destacou o impacto das apostas no orçamento das famílias. No campo da saúde e da política, a Frente Parlamentar Mista para a Promoção da Saúde Mental, que já articulava a campanha "Brasil Contra as Bets", e o Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), autor do estudo que estima em R$ 38,8 bilhões por ano o custo social das apostas, sustentam o endurecimento das regras. (fontes utilizadas: 5)
1.5 Dependência instalada
Para dimensionar o choque, é preciso primeiro medir o quanto o futebol brasileiro passou a depender das apostas. Essa dependência não foi gradual, foi acelerada. Entre a regulamentação de 2023 e 2025, a soma dos patrocínios máster da Série A saltou de R$ 496 milhões para R$ 1,117 bilhão, uma alta de 125% em dois anos, segundo a Jambo Sport Business. (fontes utilizadas: 6)
Pelo Relatório Convocados 2026, os patrocínios de bets representaram cerca de R$ 1 bilhão de receita aos clubes da Série A em 2025, o equivalente a 7,9% das receitas totais dos 20 times. Uma estimativa de parte interessada, citada pelos clubes, aponta número ainda maior: as operadoras injetariam cerca de R$ 1,4 bilhão por ano em patrocínio ao futebol, o que corresponderia, em média, a 20% da folha dessas entidades. (fontes utilizadas: 7)
Praticamente todo esse crescimento veio de um únicof setor. Em 2025, os 20 clubes da Série A tinham alguma casa de apostas entre seus patrocinadores, e 18 delas ocupavam o espaço máster da camisa. Na Série B, o quadro era semelhante, com os 20 clubes mantendo algum contrato com o segmento. (fontes utilizadas: 8)
A dependência, porém, vai além da camisa, e é isso que torna o impacto maior do que a leitura do patrocínio máster sugere. O dinheiro das apostas chegava ao futebol por várias portas ao mesmo tempo:
- Patrocínio máster, o espaço central da camisa, a maior e mais visível parcela.
- Propriedades secundárias do uniforme, como mangas, ombros e costas.
- Placas de publicidade nos estádios e propriedades digitais dos clubes.
- Naming rights e patrocínio de competições. O próprio Campeonato Brasileiro passou a levar o nome de uma casa de apostas, assim como a Copa do Brasil, e a Série B teve naming de diferentes casas de apostas desde 2022 (2022: Sportingbet, 2023: Betano, 2024: Betnacional, 2025: Superbet).
- Royalties sobre a venda de camisas, hoje comprometidos pelo estoque encalhado.
O caso do Flamengo ilustra a diferença entre o contrato principal e a exposição total ao setor. O patrocínio máster da Betano vale cerca de R$ 268 milhões por ano, mas o clube estima que o fim das apostas pode tirar até R$ 400 milhões anuais quando somadas as demais receitas ligadas ao segmento. Obviamente, esse cenário não é exclusivo do Flamengo, todos os clubes foram afetados em diferentes escalas e proporções. (fontes utilizadas: 9, 10)
Há ainda uma camada menos visível: receitas futuras de apostas já estavam comprometidas com despesas. O Flamengo havia planejado usar parte dos repasses da Betano para pagar parcelas de contratações, incluindo Lucas Paquetá, com cerca de R$ 191 milhões ainda a receber do contrato após o primeiro semestre de 2026. Isso mostra que a dependência não estava só na receita corrente, mas no fluxo de caixa que bancava o mercado de atletas, o que conecta esta seção aos capítulos seguintes. (fontes utilizadas: 11)
Em resumo, o futebol brasileiro entrou em 2026 com quase todos os clubes das duas principais divisões financiados, em alguma medida, por um setor que uma medida provisória tornaria proibido em trinta dias. É essa dependência instalada que define o tamanho do problema analisado nas próximas seções.
2. Clubes
Os impactos da proibição sobre os clubes aparecem de forma direta e imediata, pois neles se concentrava a maior parte do dinheiro das apostas. Essa perda não se resume ao patrocínio da camisa, ela se distribui também por espaço comercial ocioso e painéis de publicidade, estoque e atinge os clubes em escalas diferentes conforme o tamanho e a diversificação das receitas.
2.1 Perda de patrocínio, máster e secundário
Em setembro de 2026, 15 dos 20 clubes da Série A mantinham vínculo comercial com alguma casa de apostas. Entre esses 15 clubes, 13 possuíam como patrocínio máster, e dois clubes como patrocínio secundário (Mirassol e RB Bragantino). Na Série B, 13 dos 20 times tinham casas de apostas como patrocinador máster. A MP atinge a maioria das duas divisões de uma só vez, e não apenas o contrato principal, alcança também mangas, ombros, costas em que as bets apareciam. (fontes utilizadas: 8)
O tamanho da perda varia muito entre clubes. No agregado, os patrocínios de bets representaram cerca de R$ 1 bilhão de receita à Série A em 2025, o equivalente a 7,9% das receitas totais dos 20 times. O caso do Flamengo dá a dimensão no topo: o contrato máster com a Betano vale cerca de R$ 268 milhões por ano, mas o clube estima impacto de até R$ 400 milhões anuais quando somadas as demais receitas ligadas ao setor. Esse padrão não é exclusivo do Flamengo, mas a proporção muda conforme a estrutura de cada clube. Parte dos clubes já recebeu os valores do contrato de 2026, de modo que estampar outra marca configuraria quebra de contrato, por isso, alguns optam por deixar o espaço vago e aguardar o STF, enquanto contratos como o do Santos com a Novibet foram apenas suspensos. (fontes utilizadas: 9, 10)
2.2 Queima de estoque de camisas
A proibição criou um problema concreto no varejo dos clubes: camisas já fabricadas com a marca da patrocinadora que não podem mais ser vendidas nas condições anteriores. Novamente com o Flamengo de exemplo, segundo o próprio presidente, Luiz Eduardo Baptista, o BAP, o clube calcula um estoque parado de cerca de 150 mil camisas oficiais com a estampa da Betano. As projeções de prejuízo variam conforme o método de cálculo, de cerca de R$ 20 milhões a uma média próxima de R$ 62,5 milhões em peças comprometidas, além da perda dos royalties que viriam dessas vendas. (fontes utilizadas: 12)
O problema é maior no Flamengo por uma decisão comercial tomada antes da MP. A partir do terceiro uniforme de 2026, lançado em 31 de julho, o clube passou a vender as camisas masculinas de torcedor com a Betano aplicada de fábrica, encerrando a opção sem patrocinador. Com a peça já saindo pronta com a marca, o volume de estoque inutilizado ficou maior. O efeito se estende ao varejo em geral: lojas passaram a oferecer camisas com patrocínio de bet com desconto, numa liquidação do material que perde valor comercial a partir de 6 de outubro. (fontes utilizadas: 13)
2.3 Espaço ocioso e desvalorização do mercado
Perder o patrocinador não significa poder substituí-lo de imediato, e aí está uma perda menos óbvia. Ainda que a substituição fosse possível, ela viria em condições piores. O próprio BAP alertou que a busca simultânea de dezenas de clubes por novos patrocinadores máster tende a provocar uma desvalorização acentuada do mercado nacional, pela lei da oferta. (fontes utilizadas: 10)
O problema maior, porém, não é o espaço vago em si, mas a forma como ele será preenchido. Com a saída das apostas, 13 dos 20 clubes da Série A vão ao mercado procurar um novo patrocinador máster ao mesmo tempo, e não estão sozinhos nessa disputa: entidades e competições que também dependiam das bets entram na fila pelos mesmos anunciantes, caso da CBF com a Copa do Brasil e com o próprio Brasileirão, cujos naming rights eram de casas de apostas. É um grande volume de inventário comercial, dezenas de camisas, placas e propriedades, chegando à prateleira de uma só vez, enquanto o número de empresas dispostas a pagar por esses espaços diminui.
O resultado é uma inversão da relação de oferta e demanda que havia inflado o mercado. Quando várias casas de apostas disputavam os mesmos espaços, os preços subiram a patamares recordes. Agora, com muitos clubes e competições ofertando espaço simultaneamente e poucos compradores de porte equivalente, o valor que cada um conseguirá por esses ativos tende a cair de forma acentuada. Ou seja, mesmo o clube que encontrar um substituto deve fechá-lo por um valor bem inferior ao que recebia da bet.
O governo federal chegou a propor uma linha de crédito emergencial de até R$ 20 bilhões aos clubes, iniciativa que o presidente do Flamengo classificou como de pouca ou nenhuma utilidade para o clube, por não tratar da origem do problema, a perda de receita. (fontes utilizadas: 14)
2.4 Painéis de publicidade e demais propriedades
Além da camisa, as apostas ocupavam um conjunto de espaços comerciais dos clubes que também ficam vagos: placas e painéis de LED nos estádios, backdrops de entrevista, ativações em centros de treinamento e propriedades digitais. Esses espaços precisarão ser revendidos a anunciantes de outros setores, em um mercado que, como visto, tende a pagar menos do que as bets pagavam. A dependência desses ativos ficou visível de forma simbólica nas rodadas de 2 e 3 de outubro, quando empresas ligadas à ANJL e ao IBJR usaram justamente as placas ao redor dos campos do Brasileirão para veicular seu manifesto contra a MP, poucos dias antes de terem de desocupá-las.
Em conjunto, esses quatro vetores, perda de patrocínio, estoque encalhado, espaço ocioso e painéis vagos, convertem-se em queda de receita comercial e forçam os clubes a revisar orçamentos, o que leva a análise ao próximo elo da cadeia, o mercado de atletas.
3. Mercado de atletas
O impacto da proibição não para na receita comercial. Como o dinheiro das apostas estava incorporado ao custo do elenco, à folha salarial e ao fluxo de caixa que pagava transferências, a sua retirada atinge diretamente o mercado de atletas. A seção percorre esse encadeamento: quanto os clubes recebiam das bets, e como essa receita sustentava salários, parcelas de contratações já feitas e a capacidade de contratar.
3.1 Relação entre Bets e folha salarial
O tamanho da dependência fica claro quando o patrocínio é comparado à folha salarial. Pelo levantamento do Lance, o contrato da Esportes da Sorte com o Corinthians, de R$ 150 milhões por ano, equivalia a 26,3% da folha anual do clube, estimada em R$ 571 milhões. Na mesma comparação, o patrocínio cobria cerca de 13% da folha no Vasco, 11,6% no Cruzeiro e 9,6% no Santos. O recurso não era formalmente carimbado para salários, mas, como proporção da folha, mostra o quanto da conta de pessoal aquela receita ajudava a cobrir. Para a maioria das equipes, segundo a consultoria Convocados, o patrocínio de bet representava entre 5% e 8% do orçamento total, e chegava a cerca de 33% quando se olha apenas a receita comercial e de marketing dos clubes. (fontes utilizadas: 15)
A perda, portanto, não é de um ativo publicitário qualquer, mas de uma fatia relevante do que financiava o funcionamento esportivo. Quanto maior o peso dessa fatia na folha, maior a pressão imediata sobre a capacidade de pagar salários sem recorrer a outras fontes.
3.2 A influência em contratações e cumprimento de pagamentos
Parte dos clubes havia antecipado receitas futuras de apostas para fechar contratações, o que transforma a interrupção do contrato em um problema de caixa, não só de receita. No Flamengo, parcelas de reforços como Lucas Paquetá, Plata e Emerson Royal estavam atreladas a receitas futuras da Betano, com cerca de R$ 191 milhões ainda a receber do acordo segundo o balanço do clube, e a diretoria passou a estudar como honrar esses compromissos. No Corinthians, o impacto recai sobre os anos seguintes do contrato com a Esportes da Sorte, válido até 2029, em um clube que já operava sob forte restrição financeira. São dois exemplos de um mesmo mecanismo: quando a contratação foi planejada contando com dinheiro de bet que agora não entra, a parcela a pagar continua, mas a receita que a lastreava desaparece. (fontes utilizadas: 11, 16)
3.3 Dificuldade em novas contratações e pressão salarial
Com a receita recalculada para 2026 e 2027, a margem para novas contratações diminui e cresce a pressão para conter a folha. Alguns clubes já buscam tapar o buraco com outras fontes antes de pensar em reforços. O Corinthians, por exemplo, recebeu uma antecipação de R$ 10 milhões em outubro referente a direitos de transmissão, decisão tomada em bloco pelos clubes para antecipar receitas da temporada. O Vasco, cujo contrato com a Sportingbet poderia alcançar R$ 165 milhões até 2027, foi notificado pela empresa e passou a tratar da necessidade de substituir uma de suas principais receitas comerciais. A intensidade varia conforme o quanto cada clube dependia do setor, mas a direção é comum: menos espaço para contratar, mais pressão para renegociar salários e metas de investimento. (fontes utilizadas: 16, 17)
3.4 Empresários, agências e atletas
Dois tipos de agência são atingidos, por caminhos diferentes. As agências e empresários de atletas remuneram-se por comissões sobre transferências e renovações, de modo que um mercado com menos dinheiro e menos negócios reduz a base sobre a qual essas comissões incidem. Se os clubes contratam menos e por valores menores, o volume de negócios desses intermediários encolhe na mesma direção. Já as agências de marketing esportivo perdem uma linha de receita própria. O setor de apostas era um dos maiores contratantes de ativações, campanhas, eventos e conteúdo digital no futebol, e muitas agências estruturaram parte de sua operação em torno de contas de casas de apostas, não só nas camisas, mas em placas, propriedades comerciais e ações digitais dos clubes e das competições. Com a vedação da publicidade e do patrocínio, essas contas deixam de existir, atingindo o faturamento e, em alguns casos, a própria estrutura montada para atendê-las.
Os próprios atletas sofrem um efeito direto. A MP proíbe a publicidade de apostas por qualquer meio, inclusive por celebridades e influenciadores, de modo que jogadores com contratos individuais de imagem ou divulgação com casas de apostas perdem essa fonte de renda, assim como influenciadores e produtores de conteúdo esportivo. (fontes utilizadas: 1)
4. Mídias e transmissões esportivas
A proibição não atinge só os contratos de patrocínio dentro de campo. Como veda qualquer publicidade de apostas, ela retira de uma vez a maior fonte de anúncios que as emissoras haviam conquistado nos últimos anos. O impacto é grande porque a televisão concentrava a maior parte desse dinheiro.
4.1 A dependência das mídias com casas de aposta
Entre janeiro de 2024 e agosto de 2026, o setor regulado de apostas investiu R$ 23,6 bilhões em mídia, segundo dados do Ibope e da Tunad. A televisão ficou com a maior fatia: em 2025, o meio concentrou 74% dos investimentos das bets, contra uma média de 54% do mercado publicitário em geral, o que mostra que as apostas eram um anunciante mais dependente de TV do que a média. Em valores anuais, a Abert calcula que, nos últimos doze meses, as plataformas aplicaram cerca de R$ 1,59 bilhão em publicidade na televisão. Estimativas de mercado apontam a Globo como a mais exposta, com algo próximo de R$ 722 milhões anuais vindos do setor, número que é projeção, não dado fechado. (fontes utilizadas: 18, 19)
4.2 Retirada imediata dos anúncios
Com a MP em vigor, a saída foi rápida e partiu dos dois lados. Casas como Betano, Novibet, Superbet e Esportes da Sorte comunicaram às emissoras o encerramento dos contratos, enquanto Globo, ESPN e Band começaram a retirar os anúncios das transmissões e dos intervalos, e a Abert recomendou a todas as associadas, incluindo Globo, SBT, Record, Band e RedeTV!, a suspensão imediata de novas veiculações. (fontes utilizadas: 20)
Além das cotas de transmissão do Brasileirão e da Copa do Brasil, programas esportivos que tinham patrocínio de apostas, como Jogo Aberto e Os Donos da Bola, na Band, perdem essa receita, e algumas atrações perdem naming rights. Segundo as reportagens, Globo, Band e ESPN não pretendem cobrar multas pela quebra dos contratos, o que reduz o atrito jurídico, mas não repõe a receita.
4.3 Canais fechados, streaming e criadores digitais
A transmissão do futebol brasileiro também se espalhou pelo streaming, que absorveu dinheiro de apostas e agora precisa se adequar à MP. Na CazéTV, que exibe 38 jogos do Brasileirão em 2026, um por rodada, além de Champions League, Bundesliga, Ligue 1 e, na Copa do Mundo de 2026, os 104 jogos, o setor de apostas ocupava parte relevante das cotas de patrocínio, com KTO, Bet365 e Betnacional entre os anunciantes. Por ser gratuita e sustentada pela venda dessas cotas, a plataforma é mais sensível à saída de uma categoria inteira de anunciante do que um canal por assinatura. O peso do setor em sua grade ficou evidente quando a CazéTV foi investigada pelo Ministério da Justiça por possível publicidade abusiva de apostas durante a Copa. Com a MP, essas cotas deixam de existir. (fontes utilizadas: 21)
O streaming por assinatura é atingido por outra via. A Amazon Prime Video detém um pacote exclusivo do Brasileirão, com um jogo por rodada, além de Copa do Brasil e Libertadores selecionados, e espelha a programação da CazéTV desde 2024. A Globoplay, com o Premiere, transmite o Brasileirão e a Copa do Brasil, e o Premiere tinha a Betano entre os patrocinadores. A N Sports, braço esportivo do SBT, completava o grupo de plataformas com patrocínio de apostas. Reportagens apontam que CazéTV, N Sports e o próprio Prime Video precisarão se adequar à medida, por trabalharem comercialmente com empresas do setor.
A diferença entre os modelos mede o tamanho do baque. Plataformas de assinatura, como Prime Video e Globoplay, têm na mensalidade a principal receita, de modo que a saída das apostas reduz o faturamento publicitário sem ameaçar o núcleo do negócio. Plataformas gratuitas e financiadas por cotas, como a CazéTV, dependiam mais diretamente desses anunciantes, e aí a perda da categoria pesa mais. A mesma lógica vale para comentaristas e influenciadores com canal próprio no YouTube, que mantinham publicidade de casas de apostas em sua programação e perdem essa fonte de uma vez, já que a MP alcança qualquer meio digital e proíbe a promoção por influenciadores. (fontes utilizadas: 1)
4.4 A reação do setor
A principal resposta veio da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), que em 2 de outubro foi ao STF pedir a suspensão da MP. A entidade argumenta que a medida não atinge apenas as casas de apostas, mas também os veículos, aos quais se impôs o prazo de dez dias para retirar todo o material publicitário e de patrocínio do setor, e que cada dia de vigência acumula perdas de receita e rupturas de contrato que não serão recompostas caso a MP seja depois rejeitada ou invalidada. Vale registrar um detalhe da própria MP que suaviza parte do problema: ela preserva conteúdos exibidos antes de sua edição quando a marca de aposta aparece apenas de forma acessória. (fontes utilizadas: 2, 19)
Em conjunto, a seção mostra que a retirada das bets drena uma receita que a televisão havia tornado central em sua operação esportiva, e que a reposição por anunciantes de outros setores, já em curso, tende a vir a valores menores, pela mesma lógica de excesso de oferta vista no caso dos clubes.
5. Confederações e competições
As casas de apostas também davam nome e patrocínio às próprias competições, das disputas nacionais organizadas pela CBF até os campeonatos estaduais tocados pelas federações. A MP retira essa camada de receita de quem organiza o futebol, e não só de quem joga.
5.1 As competições nacionais da CBF
A Betano detinha os naming rights das duas principais competições do país. A Copa do Brasil passou a se chamar oficialmente Copa Betano do Brasil em 2023, e o Campeonato Brasileiro incorporou a marca em 2024, quando a Betano substituiu a rede atacadista Assaí, que detinha a propriedade havia seis anos. Com a MP, a CBF começou a adaptar a comunicação antes mesmo do fim do prazo: retirou a marca da Betano dos perfis oficiais do Brasileirão e da Copa do Brasil nas redes sociais e suspendeu as peças publicitárias da empresa, já que as marcas deveriam desaparecer até as 23h59 de 5 de outubro. A medida foi publicada durante a Data Fifa, com as competições paralisadas, de modo que o primeiro jogo sob o novo cenário ocorreria apenas na volta do calendário. A perda atinge a receita comercial da entidade e, por consequência, a parcela dessa receita que é distribuída aos clubes. (fontes utilizadas: 6, 15, 22)
5.2 Competições continentais - Copa Libertadores
As competições continentais também carregavam patrocínio de apostas: a Sportingbet era parceira da Conmebol Libertadores. Aqui há uma zona cinzenta que vale registrar com cautela. A MP vigora em território brasileiro e não governa diretamente a Conmebol, mas a exibição de marcas de apostas em jogos disputados e transmitidos no Brasil está sujeita à proibição.
5.3 Campeonatos estaduais e federações
Os estaduais foram um dos principais veículos de entrada das apostas no futebol regional, sobretudo em 2025. Naquele ano, a Superbet comprou os naming rights de sete competições de uma só vez: os campeonatos Carioca, Gaúcho, Baiano, Cearense, Sergipano e Capixaba, além da Copa do Nordeste. A lógica, segundo a própria empresa, era ganhar autoridade e relevância Estado a Estado, aproveitando torneios de início de temporada com forte presença de clubes das Séries B e C, para quem essa receita pesa proporcionalmente mais. Essas competições são organizadas pelas federações estaduais, que passaram a ter nas apostas uma fonte comercial relevante. (fontes utilizadas: 3)
A presença, porém, já vinha mudando antes da MP, e convém registrar para não superdimensionar o estrago. Em 2026, o Carioca seguiu como Cariocão Superbet, mas a Copa do Nordeste trocou o naming da Superbet pela Casas Bahia, que não é casa de apostas. Ou seja, parte do dinheiro das bets nos estaduais já havia saído por decisão de mercado, não pela proibição. (fontes utilizadas: 21)
O caso do Carioca ilustra bem o vínculo entre a bet e a saúde financeira do torneio, e aqui há uma correlação datável. O campeão carioca ficou sem premiação em dinheiro de 2021 a 2025, política adotada após a última premiação direta, em 2020, quando os clubes passaram a priorizar as cotas fixas de transmissão. A edição de 2026, já sob o naming da Superbet, voltou a pagar prêmio, e o campeão Flamengo recebeu R$ 20 milhões. A volta do prêmio coincide, portanto, com o período em que a competição carregava o patrocínio de uma casa de apostas, o que torna a receita das bets uma das fontes que sustentaram essa mudança. Não afirmo causa única, mas a coincidência de datas é clara: A coincidência temporal sugere que o fortalecimento das receitas comerciais, incluindo o patrocínio da Superbet, contribuiu para criar condições para a retomada da premiação do Campeonato Carioca. (fontes utilizadas: 11, 15)
6. Varejo e material esportivo
No varejo, a dificuldade está nas camisas já compradas pelas lojas. Elas só puderam ser vendidas com a marca da bet até 5 de outubro; a partir daí, a exposição passa a ser proibida. O problema é de margem e de caixa. Segundo apuração da Agência RTI Esporte, as lojas costumam pagar de 70% a 75% do preço final da peça, o que deixa uma margem de 25% a 30%. Uma camisa oficial de R$ 600 pode custar de R$ 420 a R$ 450 ao lojista, de modo que uma liquidação a R$ 350 gera perda de R$ 70 a R$ 100 por peça. Em mil unidades, o prejuízo potencial fica entre R$ 70 mil e R$ 100 mil. A liquidação é a saída mais rápida para girar o estoque, mas é também o que aprofunda a perda, e é o que já se via nas lojas, com camisas de clubes patrocinados por bets em promoção. (fontes utilizadas: 13, 23)
Do lado da indústria, as fabricantes de material esportivo entram na conta. A Adidas, principal fornecedora do futebol brasileiro, e as demais marcas produziram uniformes com a marca das apostas aplicada e agora precisam discutir alternativas com clubes e lojas, como a substituição ou alteração das peças, ou alguma compensação comercial, conforme os contratos entre as partes. É um custo de reprocessamento que recai sobre uma etapa que não tinha relação direta com o patrocínio. (fontes utilizadas: 6, 24)
Há, por fim, um efeito indireto sobre empresas que vendem produtos e serviços ao futebol, de material esportivo a tecnologia do esporte, como Catapult e Hudl. Com os clubes revisando orçamentos, tende a sobrar menos para esse tipo de contratação. Registro isso como consequência do aperto financeiro já descrito, e não como dado com número próprio, que não há.
7. A estrutura futura e o benchmarking internacional
Os capítulos anteriores descreveram o choque sobre cada ator. Este reúne esses conteúdos e pergunta que estrutura emerge depois da poeira baixar. A resposta depende, primeiro, do desfecho jurídico e político, e, segundo, de como e a que preço a receita das apostas será substituída. A experiência europeia serve de exemplo, com uma ressalva importante sobre o que o Brasil está fazendo de diferente.
7.1 As possíveis resoluções jurídicas
A estrutura futura não é uma só, porque o cenário ainda está aberto, como visto no capítulo 1. Se a proibição total for mantida, pelo Congresso e pelo STF, o futebol terá de reconstruir sua base comercial sem o setor que a financiava. Se a MP for convertida em uma regra que proíba apenas o cassino online, o patrocínio esportivo sobrevive e a reorganização é marginal. Se a medida cair, por caducidade no Congresso ou por decisão do STF, volta o arranjo regulado anterior.
Vale um qualificativo sobre os dois cenários mais favoráveis ao futebol, a derrubada da MP e a conversão em regra que preserve a aposta esportiva. Em nenhum dos dois o mercado volta simplesmente ao patamar anterior. O episódio deixou demonstrado um risco que antes era apenas teórico: uma atividade autorizada e tributada foi proibida por medida provisória, com prazo de poucos dias, dois anos e meio após a sua regulamentação. Mesmo que a proibição caia ou seja suavizada, as casas de apostas passam a considerar esse risco de reversão antes de reinvestir pesado no futebol brasileiro. Na prática, isso tende a significar contratos mais curtos, valores mais baixos e cláusulas de saída mais protegidas, em vez do retorno imediato às cifras recordes de 2025. Trata-se do comportamento esperado do setor diante da insegurança criada, não de um dado com número próprio. O que está documentado é o risco de reversão em si, já apontado pelos próprios operadores como uma quebra de confiança nas regras. (fontes utilizadas: 25)
Isso reforça uma ideia que atravessa a pesquisa: a desvalorização do espaço comercial do futebol não vem só do excesso de oferta de clubes em busca de patrocínio, mas também da perda de confiança do setor que mais pagava por esse espaço. Mesmo no melhor cenário para o futebol, a conta tende a ser menor do que era.
7.2 Para onde deve migrar a receita
A saída das apostas não é um fato isolado, é a virada de mais um ciclo. A categoria que domina o espaço máster do futebol brasileiro muda conforme o setor que, em cada momento, combina dinheiro e alcance, e isso acompanha a própria economia do país. Nos anos 2000, foi a vez dos eletrônicos e da tecnologia: a Samsung patrocinou o Corinthians e a LG estampou o São Paulo, no embalo da popularização dos celulares e dos televisores. Nos anos 2010, após a crise financeira global, vieram os bancos: a Caixa Econômica Federal chegou a ter a marca em 17 dos 20 clubes da Série A em 2017, e bancos como o Inter, no São Paulo, e o BS2, no Flamengo, além da Crefisa no Palmeiras, ocuparam o espaço nobre. Após isso, com a legalização das apostas, começou a era das bets, que atingiu o auge em 2025. (fontes utilizadas: 26)
Cada ciclo terminou por um motivo diferente. A era da Caixa encerrou-se em 2018, quando o governo federal decidiu não renovar os contratos. A era das bets termina agora, por proibição. Em ambos os casos, o futebol foi obrigado a procurar, de forma rápida, o setor seguinte.
Os candidatos mais prováveis aparecem tanto nos sinais brasileiros quanto no que já ocorreu fora. No Brasil, as primeiras reposições apontam para o varejo e para o setor financeiro, como no caso da Globo, que substituiu a cota de uma casa de apostas por um supermercado nas transmissões do Carioca. A leitura de mercado é que bancos e empresas de tecnologia voltem a ocupar espaço, reduzindo a dependência de um único setor. O padrão internacional reforça isso: na Inglaterra, o setor financeiro foi o maior substituto das apostas na frente das camisas da Premier League, e na Espanha a tecnologia aparece no topo, com o Barcelona patrocinado pela Spotify. Marcas de tecnologia e e-commerce já estavam presentes em espaços secundários no Brasil, caso de Shopee e Amazon, o que as coloca como naturais candidatas a subir para o espaço principal. (fontes utilizadas: 27)
O que separa a próxima era da anterior, porém, é o preço. Nenhum desses setores paga hoje o que as bets pagavam no auge, e, somada a desvalorização por excesso de oferta já descrita, a conclusão é que o espaço será reocupado, mas por um valor menor.
7.3 Benchmarking internacional
A Europa já passou por versões dessa transição, e a comparação destaca o caso brasileiro em alguns aspectos. Na Inglaterra, a Premier League proibiu o patrocínio de apostas apenas na frente das camisas, regra que entrou em vigor na temporada 2026/27 após três anos de transição acordados em 2023. Antes da mudança, 11 dos 20 clubes exibiam bets no peito, em contratos que somavam até 100 milhões de libras, e o espaço foi ocupado principalmente por empresas do setor financeiro, além de turismo, seguros, recrutamento e tecnologia. Na Espanha, desde 2020, e na Itália, desde 2018 e 2019, a proibição é quase total, alcançando camisa, manga, treino e naming rights, e empurrou os clubes para outros setores, com o Barcelona mantendo a Spotify, por exemplo. Ainda assim, surgiram contornos: na Itália, marcas ligadas a apostas seguem presentes travestidas de plataformas de conteúdo e estatística, como Betsson Sport na Inter e Eurobet.live na Roma. (fontes utilizadas: 21, 28, 29)
A diferença decisiva está no que cada modelo proíbe. Todos os casos europeus restringem a publicidade e o patrocínio, mas mantêm a atividade de apostas legal, e o fazem ao longo de anos. A MP brasileira vai além: proíbe a própria atividade, e de forma abrupta, com prazos de 10 a 30 dias. O Brasil, portanto, faz algo mais radical e mais rápido do que qualquer uma de suas referências, o que torna menos garantida a adaptação gradual que a Europa teve, em que o espaço foi redistribuído sem que os clubes ficassem sem alternativas.
7.4 Conclusão final
Esta pesquisa partiu de uma pergunta: como a proibição das casas de apostas, pela Medida Provisória 1.394/2026, reorganiza o mercado do futebol brasileiro, o que chamamos de shift diante da nova realidade. A resposta, reunindo os capítulos, é que o choque é profundo porque a dependência era profunda. As apostas não eram um patrocinador a mais; haviam se tornado um grande financiador do futebol nacional.
O mapeamento por ator mostrou o alcance. Nos clubes, as bets estavam em 15 dos 20 times da Série A e respondiam por cerca de 7,9% da receita das equipes da elite, com perdas que vão do patrocínio máster ao estoque de camisas e aos espaços de publicidade. No mercado de atletas, o dinheiro do setor sustentava não só salários, mas o próprio fluxo que financiava contratações. Nas mídias e no streaming, era a maior fonte de anúncios das transmissões. Nas competições, dava nome ao Brasileirão e à Copa do Brasil e sustentava estaduais e federações. E, na ponta, atingia o varejo e os fornecedores do futebol. O encadeamento é o mesmo em todos os elos: menos receita de apostas, revisão de orçamentos, impacto em salários, contratações e no preço dos direitos comerciais.
O shift do futebol brasileiro é, portanto, uma redução forçada e acelerada da dependência de um único setor, com uma base comercial menor no curto prazo, cujo tamanho será definido tanto pelo Congresso e pelo STF quanto pela capacidade do mercado de repor, a outro preço, o dinheiro que saiu. Para o futebol brasileiro, o acompanhamento mais útil nos próximos meses é duplo: a tramitação da MP, que define qual dos três cenários prevalece, e o movimento de reposição de patrocinadores, que dirá qual setor inaugura a próxima era e a que valores, medindo na prática o tamanho do buraco deixado.
8. Referências bibliográficas
8.1 Referências citadas
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13. TERRA. Fim das bets ameaça estoque de camisas, 29 set. 2026.
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15. LANCE. Superbet adquire naming rights do Carioca, 27 dez. 2024; Fim das bets: o peso dos patrocínios nas folhas, 26 set. 2026; CBF retira a Betano dos perfis, 1 out. 2026.
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19. MEIO & MENSAGEM. Quais marcas patrocinavam antes das bets, 22 set. 2026; Abert vai ao STF, 2 out. 2026.
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8.2 Demais fontes consultadas
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THE FOOTBALL. Tudo sobre a MP das bets e o impacto no futebol, 4 out. 2026.
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